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Por José Carlos Ruy*

Há muitas tentativas para explicar o nazismo como um regime político extremamente autoritário. Como entender a emergência de um sistema político criminoso e assassino na Europa civilizada e, sobretudo, na Alemanha que havia dado ao mundo um Goethe, um Beethoven, um Hegel, um Thomas Mann?

Há múltiplas tentativas de responder a esta questão, muitas vezes de natureza ur (a loucura da liderança nazista), o nacionalismo pangermânico, a humilhação nacional após a 1ª Grande Guerra, o antissemitismo, o racismo, etc. Estas são explicações parciais e superficiais da existência do nazismo.

É preciso tentar entendê-lo de forma mais profunda, no contexto da politica européia. Assim, é preciso entendê-lo como o mais grave e sanguinário episódio da luta de classes jamais acontecido.

A etapa anterior – o período clássico da revolução democrático-burguesa – foi marcada, esquematicamente, por um padrão de alianças de classes no qual a burguesia aparecia à frente do conjunto da sociedade,  particularmente os trabalhadores da plebe urbana e o campesinato, contra a velha aristocracia feudal.

Esse padrão de aliança de classes mudou de maneira radical em meados do século 19, sinalizado pela chamada primaverados povos, pelas jornadas de junho de 1848 na Franca, pela emergência na história de um protagonista que se opunha de forma radical à hegemonia da burguesia e que apresentava um programa próprio de organização da vida e da sociedade – o proletariado, que foi percebido como ameaçador pela burguesia e seus aliados. Foi nesse contexto que Karl Marx e Friedrich Engels publicaram o Manifesto do Partido Comunista, registrando o programa e os objetivos das forças avançadas e revolucionárias.

Surgia então, entre as classes proprietárias,  um novo arranjo, autoriitário, para se opor à ameaça da revolução proletária, que se tornava concreta – e a burguesia, temerosa, juntou-se à aristocracia, em defesa da ordem e da propriedade. Marx registrou essa mudança em O Capital: A “insurreição parisiense de junho e sua sangrenta repressão fez com que se unissem em bloco, tanto na Inglaterra como na Europa Continental, todas as frações das classes dominantes, latifundiários e capitalistas, especuladores da Bolsa, lojistas protecionistas e livre-cambistas, governo e oposição, padres e livre pensadores, jovens prostitutas e velhas freiras, sob a bandeira comum da salvação da propriedade, da religião, da sociedade!”.

Nesse contexto, a velha e decadente aristocracia teve uma sobrevida, passando a governar ao lado da burguesia em arranjos contrarrevolucionários e antidemocráticos, cuja ação na repressão à Comuna de Paris, o governo operário que dominou a capital francesa entre 18 de março e 28 de maio de 1871. A repressão foi sangrenta. Aliado com as tropas prussianas que ocupavam a França, o governo de Adolphe Thiers promoveu um massacre: em torno de 25 mil militantes da Comuna foram sumariamente fuzilados; 44 mil foram presos, quatro mil deportados e inúmeros condenados a penas de prisão “No total, escreveu Lênin, Paris perdeu 100 mil filhos, entre os quais se encontravam os melhores operários de todos os ofícios. A burguesia estava satisfeita”.

A repressão à Comuna é a antevisão da brutal violência que se generalizaria, na Europa, décadas mais tarde, sob o fascismo, forma de governo que se difundiu após a 1ª Grande Guerra levando até as primeiras décadas do século 20 práticas do velho absolutismo, agravadas – especialmente sob a forma alemã do fascismo, o nazismo, por técnicas modernas, como a eletricidade, os veículos automotores, aviões, armas de repetição como as metralhadoras, fornos crematórios, etc., que potencializam a força repressora e a capacidade de matar em escala industrial, como ocorreu sob o nazismo.

A Alemanha foi derrotada na 1ª Grande Guerra, e a paz, consagrada no Tratado de Versalhes, foi extremamente lesiva e espliatória para a Alemanha, obrigada a pagar pesadas indenizações de guerra, que praticamente inviabilizavam sua economia, além de perder territórios para os vencedores e ficar proibida de manter uma força armada nacional.

A conjuntura internacional nascida ao final da 1ª Grande Guerra complicou muito a situação dos governos e das elites cujo programa pretendia a derrota e eliminação do movimento revolucionário dos trabalhadores. O grande complicador, na conjuntura mundial, foi a vitória bolchevique, na Rússia, e a formação do primeiro governo de trabalhadores na História, encarado  pelas classes dominantes europeias  como uma ameaça real a seu domínio e que, de seu ponto de vista, precisava ser derrotado.

Essa luta marcou a política externa naqueles anos. Luta contra o socialismo, o proletariado organizado e o movimento revolucionário anticapitalista e anti-imperialista.

Ao final da 1ª Grande Guerra houve, já em janeiro de 1918 (diz o historiador Eric Hobsbawm), greves políticas e manifestações contra a guerra na Europa Central, começando em Viena, e se espalharam à Hungria, às regiões tchecas da Alemanha, culminando na revolta dos marinheiros austro-húngaros no  Adriático (Hobsbawm: 1995).

Na Alemanha, a derrota, oficializada em  11 de novembro de 1918, levou à queda da monarquia (o kaiser Guilherme II adicou em 9 de novembro de 1918) e ao exílio de sua família. Abriu-se um processo de luta de classes que poderia ter levado a um desfecho revolucionário. Os conselhos de operários e soldados (uma alemã dos sovietes) proliferaram. Mas enfrentaram a oposição dos dirigentes do SPD. Segundo o historiador Micos Hajek, na Alemanha em 1918 os dirigentes do SPD que, teriam aceitado a instauração de uma monarquia parlamentar com algum verniz social, desde 9 de novembro se viram na contingência de liderar uma revolução que não desejavam nem apoiavam.

Eles apostavam numa democratização gradual da república junker-burguesa e, para manter a revolução nesse âmbito democrático-burguês, “contra as tentativas revolucionárias do proletariado, aliaram-se inclusive com os generais prussianos” (Hajek: 1985). Em 9 de novembro o príncipe herdeiro do trono alemão passou o governo ao dirigente do Partido Socialista da Alemanha (SPD) Friedrich Ebert, e há notícias de que Ebert, antes do embarque do príncipe ao exílio, teria dito a ele que odiava a revolução e tudo faria para evitá-la.

O governo do SPD permitiu a ação dos mal afamados freikorps (“corpos livres”) da direita alemã, formados por ex-combatentes inconformados com a derrota. Eles formaram “o principal apoio militar do governo social democrata” (Hajek: 1985). Os freikorps eram apoiados pelo ministro da Defesa do governo social democrata, Gustav Noske, que os usou para reprimir o levante revolucionário de janeiro de 1919 em Berlim; foi um desses esquadrões da morte que assassinou os líderes revolucionários Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, em 15 de janeiro de 1919.

Isto é, a revolução alemã, que despontou no fim da guerra e que poderia desembocar no socialismo, entrou no labirinto que levaria à sua derrota, depois de muita luta.

Leia a segunda parte do artigo no link a seguir.